Todos somos crianças, eternas crianças, crianças grandes, com personalidades diferentes e mais maduras, mas e os sonhos? Será que ainda sonhamos como antes? Será que as borboletas e os grilos que cantavam na nossa barriga quando algo estava prestes a acontecer ainda se mantêm acordados?
Eu não sei quanto a vocês, mas eu sempre quis ser adulto, eu chegava a casa, tirava o bibe da escola e sentava-me no sofá e via os programas dos adultos, fingindo que era grande e que percebia tudo, apesar de não entender rigorosamente nada, eu imaginava eu vestido de bata num hospital a dar xarope as pessoas, imaginava um mundo colorido onde todas as pessoas sorriam, onde havia muitos animais felizes a brincar com as crianças em jardins verdes, onde as pessoas ficavam doentes e tomavam xarope e curavam logo, um mundo onde havia trabalho para toda a gente, onde ninguém perdia o espírito, onde toda a gente tinha a capacidade e a oportunidade de ser feliz.
Cresci, anos passaram e não vejo nada disso.
Vejo apenas um mundo onde o cinzento e uma cor que predomina no ar, nos sorrisos forçados das pessoas que fingem estar contentes com tudo, que predomina no olhar das pessoas que pedem na rua porque não têm casa, família, trabalho ou amor, cinzento nas ruas cheias de gente, cinzento na alma e no coração da maioria das pessoas.
Onde está o espírito? Onde está toda a cor que o mundo deveria ter? Onde estão todas as pessoas felizes, apaixonadas, a viver o seu amor, a trabalhar? Não vejo nada disso.
Vejo pessoas que choram escondidas, pessoas infelizes porque são julgadas pelo que são e pelas escolhas, pessoas que são maltratadas todos os dias, pessoas que estão doentes e ninguém quer saber delas, vejo os animais abandonados pelas ruas, vitimas de maus tratos a passar fome, crianças a serem maltratadas nas escolas onde elas deveriam estar felizes a brincar e a aprender, vejo idosos esquecidos com as suas memorias ignoradas por todos, vejo crianças que choram e sofrem abandonadas pelas famílias que não têm condições nem são capazes de cuidar delas, vejo tristeza, desilusão, mágoas, pessoas que são acusadas e criticadas injustamente.
Caminho sozinho por esta estrada que percorre todo o mundo com caminhos aleatórios onde me deparo com tudo, rios de lágrimas descem das nascentes e salgam o mar, desgostos partem e tornam nos barcos de viagem, famílias destruídas separadas cada uma em seu caminho, amores perdidos, palavras entaladas na garganta que se recusam a sair.
Será possível que tudo se tenha transformado assim tão rápido? Será normal tudo ser assim? Ou serei apenas eu a sobrevoar pensamentos de um mundo sem cor, onde tudo aquilo que daria tom mais vivo desaparece?
Ao fim ao cabo, tudo se resume ao mesmo:
Nascer, crescer, amar, desiludir, morrer.
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